A 19 de junho, o catálogo da Netflix prepara-se para receber Oasis, uma série original que promete fechar-nos num paraíso envenenado. Criada a várias mãos por Ramón Campos, Jon de la Cuesta Olaizola, Javier Chacártegui Horrach, David Orea Arribas e Ricardo Jornet Gallego, a aposta recai sobre o confinamento de luxo. A produção tem a assinatura de peso da Bambú Producciones — a produtora europeia de Ramón Campos que, desde 2008, nos tem servido êxitos de dimensão internacional como Gran Hotel, As Telefonistas, Fariña (Cocaine Coast) e, mais recentemente, O Caso Asunta. Com a chancela de produtores executivos como Gema R. Neira e David Pinillos, a série não se fica pelos meios-termos: ou te desvenda os segredos da alta-roda, ou afunda-te com eles.
Imaginem a estância balnear mais exclusiva do país. Praias privadas, facilidades VIP e uma segurança impenetrável que roça a paranoia. O refúgio perfeito para as famílias mais endinheiradas passarem o verão das suas vidas. Tudo descamba quando a polícia invade o recinto para investigar um desaparecimento bizarro. O elenco é denso, montado para nos confundir a cada episódio. Ana Garcés, Tomy Aguilera e Victoria Kantch encabeçam uma lista interminável que junta Manel Duarte, Berta Castañé, Ada Molina, Cande Méndez e Alex Mola num autêntico caldeirão de suspeições. Todos, desde os hóspedes aos funcionários — que ganham vida através de Laura Simón, Jan Buxaderas, Amanda Palomino e Blas Polidori —, escondem esqueletos no armário capazes de virar a investigação do avesso. Ninguém sai até o culpado vir à tona, e as participações especiais de nomes consagrados como Unax Ugalde, Alicia Borrachero, Mercedes Sampietro, Paco Tous e Verónica Sánchez só adensam a teia. É o clássico mistério de quarto fechado, mas com um verniz de ostentação.
O Reverso da Medalha: A Obsessão no Asfalto
Mas se a ficção europeia da Bambú aposta no sol e nas praias privadas para mascarar o crime, a Netflix tem sabido equilibrar a balança com narrativas urbanas muito mais sujas e cruas. A par de sucessos de ação aclamados na plataforma, como Man on Fire, o drama policial Nemesis aterra no serviço de streaming para provar que a sujidade das ruas de Los Angeles continua a ser um terreno fértil. E fura as expectativas. É um formato áspero, com um estilo vincado e altamente viciante.
O foco salta do “quem foi?” para os limites da obsessão humana. Acompanhamos o detetive Isaiah Stiles (interpretado por Matthew Law) na sua caça implacável a um gangue especializado em assaltos de alto calibre. Stiles é o arquétipo do polícia que não consegue desligar o interruptor. Alienado da mulher, de costas voltadas para o filho e em constante atrito com o pai, Amos (Moe Irvin), um antigo membro de gangues e ex-presidiário. O trabalho engoliu-o vivo, assombrado pelo fantasma da morte do seu antigo parceiro às mãos de um bando que ele agora persegue, feito Ahab atrás da sua baleia branca.
Do outro lado da barricada está Coltrane Wilder (Y’lan Noel), o líder do gangue. Um ex-recluso que conseguiu vender à comunidade local a ilusão bem-amanhada de que endireitou a vida. Nos oito episódios da série, os criadores Courtney A. Kemp (conhecida por Power) e Tani Marole recusam-se a apressar o ritmo. Preferem cozinhar a tensão em lume brando, construindo o xadrez antes de moverem as peças.
A faísca dá-se com um assalto de alto risco numa festa de Halloween em Beverly Hills, encabeçado por um grupo de quatro homens. Stiles deteta ecos do passado, ignorando o ceticismo da sua superior, Charlie (Sophina Brown), e monta uma equipa de intervenção que começa a despir a identidade do gangue. A suspeita de que Wilder e os seus rapazes estão ligados à morte do seu antigo parceiro leva Stiles ao extremo, atirando-se de cabeça para o abismo.
A narrativa ganha, no entanto, contornos quase doentios quando as vidas pessoais colidem. A mulher de Coltrane, Ebony (Cleopatra Coleman), move-se nos mesmos círculos filantrópicos elitistas que Candace (Gabrielle Dennis), a mulher cirurgiã de Stiles. Quando se cruzam, sabem perfeitamente quem a outra é. O que se desenrola é um jogo do gato e do rato sufocante, prolongado por quase toda a série, justificando o título Nemesis. Duas faces da mesma moeda, duas produções que deixam o julgamento moral pendurado num fio, entregando-nos o trabalho sujo de escolher um lado.