O CEO da Alphabet, Sundar Pichai, conduziu mais uma edição da Google I/O e, embora as duas horas de conferência tenham sido inundadas de novidades sobre Inteligência Artificial, o grande destaque saltou para o hardware. A Google não quer deixar o mercado dos óculos inteligentes de bandeja para a Meta e prepara-se para atacar em força. Com lançamento previsto para o outono de 2026, os novos “Audio Glasses” da gigante tecnológica são o primeiro passo material desta estratégia.
Estes óculos iniciais dispensam para já os ecrãs internos e apostam todas as fichas na integração de câmaras, microfones e altifalantes. A engenharia e o design nasceram de uma colaboração tripla com a Samsung e as marcas de óculos Gentle Monster e Warby Parker. O conceito é brutalmente simples: com um leve toque na armação, o assistente Gemini entra em ação, pronto para ouvir comandos e mastigar a informação visual que a câmara capta.
O Trunfo do Ecossistema na Guerra do Hardware
Na prática, a câmara transforma o ambiente à nossa volta num motor de busca em tempo real. Podes estar parado à porta de um restaurante e perguntar ao Gemini se as avaliações valem a pena, ou pedir para te explicar que raio de formação de nuvens é aquela que vês no céu. Pelo meio, os óculos também leem mensagens e dão indicações de navegação.
A Meta já leva um bom avanço nesta corrida. A empresa de Mark Zuckerberg tenta cimentar os óculos inteligentes como uma categoria de consumo corrente há anos e, com a força de produção e distribuição da gigante EssilorLuxottica (detentora da Ray-Ban e da Oakley), vendeu mais de sete milhões de unidades só no ano passado. No entanto, a Google tem um trunfo na manga formidável: a capacidade de cruzar a visão da sua IA com o mar de dados que possui no Google Maps, no Gmail e na Pesquisa.
Embora há um ano a Google tenha chegado a mostrar protótipos com um pequeno ecrã integrado no vidro para exibir rotas ou traduções, a I/O deste ano não revelou datas para esse modelo mais avançado. A Bloomberg aponta o lançamento de óculos com ecrã para o próximo ano, numa altura em que a Apple (que trabalha na sombra neste tipo de dispositivos há anos) poderá também lançar os seus primeiros óculos sem visor.
O Motor por Trás dos Óculos: Gemini 3.5 Flash e Omni
O cérebro que vai alimentar todo este hardware recebeu, obviamente, a devida atenção. Quem esperava um salto gigante para um Gemini 4.0 viu as expectativas um pouco furadas, dando lugar ao anúncio do Gemini 3.5 Flash. Apesar de ser apenas uma atualização ao modelo base, não lhe falta músculo: a Google garante que o novo modelo é quatro vezes mais rápido do que as alternativas equivalentes no mercado.
A par do Flash, surge o Gemini Omni Flash, uma ferramenta poderosa — mas restrita a clientes pagos — que consegue cuspir conteúdos novos cruzando comandos de texto com fotografias, áudio e vídeo.
Esta sede de criar uma IA cada vez mais reativa reflete-se fortemente na tradicional barra de pesquisa. O motor de busca da Google — cuja nova versão já está a ser distribuída a nível global tanto em computadores como em telemóveis — quer agora adivinhar a tua intenção muito além do típico preenchimento automático, sugerindo perguntas secundárias em que possas não ter pensado. Para os subscritores do Google AI Pro e Ultra, a barra passa a incorporar agentes de IA que pegam em pedidos complexos, partem-nos em tarefas mais pequenas e dão uma resposta agregada para que possas resolver o teu problema ali mesmo, numa única página.
Conversas em Tempo Real: Docs Live e YouTube
A Google está a afastar-se cada vez mais do modelo rígido de “pergunta e resposta”, procurando dinâmicas de conversação puras. A prova disso são duas novas integrações cirúrgicas:
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Ask YouTube: Em vez de usares palavras-chave secas, vais poder conversar com um chatbot integrado no YouTube para encontrares aquele vídeo super específico de que precisas. A funcionalidade arranca já neste verão de 2026, embora limitada aos Estados Unidos.
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Docs Live: Uma das demonstrações mais impressionantes da conferência. Permite ditar e operar o Google Docs (e outras aplicações do ecossistema) exclusivamente através de comandos de voz, com a IA a gerar um discurso complexo de raiz sem que o utilizador precise de tocar no teclado.
Spark: O Agente Pessoal que Não Dorme
Para fechar o ramalhete, a Google apresentou o Gemini Spark. Construído sobre o modelo 3.5 e utilizando a framework Antigravity, o Spark é um agente de IA pessoal desenhado para estar sempre ativo, 24 horas por dia.
A grande mais-valia aqui é a persistência na nuvem. Ao contrário dos assistentes locais, podes simplesmente fechar a tampa do portátil e ir à tua vida, que o Spark continua a trabalhar em pano de fundo. A premissa é que o Spark passe de um mero respondedor de perguntas a um parceiro de trabalho proativo, capaz de absorver tarefas recorrentes e aprender com os teus padrões de uso. De momento, o Spark não passa de uma versão beta restrita aos assinantes Ultra nos EUA, mas o sinal que a Google envia é claro: a tecnologia não está a ser desenhada para te dar respostas, mas para trabalhar a teu lado.